Dia 24 de Dezembro de 2015, véspera de Natal e a cidade não para.
Leiria em dia de festa, coberta de luzes e magia espalhadas por cada tronco de árvore.
A cidade está repleta de harmonia e paz.
É uma época especial para muitos e, simultaneamente, de grande alvoroço para todos, para que tudo corra na perfeição na esperada noite de consoada.
As lojas enchem-se de consumidores em êxtase para comprar os últimos presentes. O trânsito não dá tréguas: corre-se para os doces com a mesma velocidade com que se acertam os últimos pormenores para os adereços que ficarão no centro da mesa.
Mesmo com toda esta atmosfera que nos envolve a quase todos; Mesmo nestes dias tão delicados, tão familiares, tão nossos, os “trabalhadores de tempo inteiro” não param e é nestas alturas mais festivas que o trabalho aumenta.
Entre o amor partilhado pela maioria da população e os presentes que se oferecem, na esperança de agradar ao máximo os nossos mais próximos amigos e familiares, os arrumadores de carros da cidade não baixam armas, nem dão chances ao cansaço que se reflete nos seus olhares.
João Miguel Marques, 34 anos, arrumador de carros há 8 por necessidade, já se encontra ao serviço. “O parque de estacionamento do mercado é o escolhido para o dia de hoje, por não ter parquímetro ativo, todavia, e por ser muito movimentado, por norma é a escolha para trabalhar predileta”, diz-nos João, sorridente.
“Sou feliz na minha pele e satisfeito com todo o serviço que presto na minha cidade de Natal, Leiria” – confessa-nos.
Considera ter um emprego como qualquer outra pessoa, acrescenta apenas ser diferente num aspecto: o “ter de lutar todos os dias pelo meu próprio vencimento.”
Gosta do Natal. Da cidade que muda, da visão diferente que as pessoas têm dele nesta época. Das luzes, da alegria, do espiríto que lhe traz saudade do tempo que já não volta. “Não conquisto mais a confiança de quem quer que seja, isso é um trabalho diário, no entanto sinto mais generosidade na remuneração que recebo por esta altura, mais ternura, mais carinho, mais atenção das pessoas que se dirigem a mim ” confirma-nos João Marques.
De sorriso na cara e boa disposição vestida, é assim que encara a vida todos os dias. Na esperança de um dia existir para si um futuro melhor, mas sempre de cabeça erguida perante a rotina diária que tem. “A minha maior motivação para acordar todos os dias é a luz do sol” conta-nos João.
O natal é passado com um irmão e com alguns amigos. “Presentes é coisa que não existe por não ser possível”, partilha. No entanto nunca deixa de colocar luzes em toda a sua casa, porque adora.
Após observarmos um pouco do trabalho de João, falámos com Gomes, taxista de profissão, com 57 anos, que nos confirma que “nenhum dos arrumadores daquela zona é problemático ou falta ao respeito a quem quer que seja, a maioria tem a autorização necessária para exercer que lhes é cedida pela Junta de Freguesia e já evitaram até alguns assaltos”.
Ainda que não utilize os serviços dos arrumadores de carros por não ter necessidade, dada a sua profissão, considera-os “de confiança e úteis para a organização da cidade”.
Pela parte da tarde, rumamos ao parque de estacionamento do edificio 2000, onde sabemos que seria fácil encontrar Alcino Oliveira, 46 anos e um dos arrumadores de carros “que mais confiança conquistou dentro da população Leiriense”, conta-nos Rui Ribeiro, contabilista com 44 anos.
Alcino Oliveira tem este ofício há 15 anos.
As razões que o levaram a adoptar este estilo de vida “foram erros no passado”, que o condenaram à impossibilidade de um futuro melhor.
Na esperança de se restruturar e de constituir família, adotou este segundo plano como solução para muitas armarguras.
Não conta com qualquer ajuda do Estado, porque todavia não se inscreveu no Centro de Emprego e Formação Profissional.
A clientela habitual conta quase diariamente com a sua ajuda: “A maioria entrega-me as chaves do carro e eu faço todo o meu trabalho em função do espaço que vou conseguindo com a entrada de alguns automóveis e a saída de outros, no fim do dia eles chegam e eu digo onde pus o carro, dou-lhes a chave e eles seguem para a vida deles” conta-nos Alcino orgulhoso e de sorriso no rosto.
Nesta época natalicía, “as recompensas são mais generosas, e não há pessoa nenhuma que conheça o meu trabalho que não me dé alguma ajuda extra para a minha consoada. Já cheguei a fazer 400€ no dia 24 em presentes de natal, daqueles que acabaram por se tornar meus amigos depois de tantos anos na profissão” diz-nos, com uma sensação de satisfação bem clara no rosto.
Acerca do seu natal, considera-o igual ao de todos nós “É passado em família com a minha companheira, as minhas filhas e a minha neta de 4 anos de idade.”
É garantidamente feliz e todos os dias agradece a Deus por ter mudado de vida. Continua a ter força para exercer esta ocupação tão dura e por vezes injusta.
“Já evitou vários conflitos, assaltos e o parque de estacionamento atrás do Edifício 2000 é seu” conta-nos Álvaro Sousa, de 53 anos, advogado que todos os dias conta com o apoio de Alcino para não perder tempo a estacionar o seu veículo.
O movimento vivido naquele parque é estonteante, “o Alcino não para um segundo e é duma responsabilidade imensa em tudo o que faz. Tem licenciamento da Junta de
Freguesia para desempenhar as suas funções, e estudou o código da estrada para nunca colocar em perigo nem os nossos veículos nem nenhum peão que se atravesse no seu caminho. Não há motivo nenhum para não ajudar estas pessoas, que tudo fazem para voltar a ter uma vida dita normal, e para as apoiarmos na busca duma segunda oportunidade na vida. Ele é excelente naquilo que faz e não há como não confiar. E claro, nesta altura tentamos todos contribuir um pouco mais no que lhe oferecemos para que tenha uma noite de natal digna da segurança que nos proporciona todo o ano” conta-nos Dr. Coutinho, o primeiro homem a confiar-lhe a sua própria chave do carro.
Alcino já no fim do seu dia de trabalho, que começa as 9h, encontra-se cansado mas realizado por mais um dia de luta vitorioso. Considera-se feliz e anseia pelo fim do trabalho para poder juntar-se aos seus, “que todos os dias me motivam para ser uma pessoa melhor”, concluindo sorridente.
Ana Teresa Santos 1130328
Sandrina Gomes 1120244
Pela Unidade Curricular de Meios e Produções Jornalística, lecionada pelo Professor Paulo Agostinho
No Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Educação das Ciências Sociais na licenciatura de Comunicação Social e Media.
Por Ana Teresa Santos e Sandrina Gomes