A memória é onde a saudade mora

A saudade, essa dor que corrói, que mói, que se instala devagarinho e depois fica. Fica como se sempre tivesse sido dali. Vai até às entranhas, mexe, remexe, e quando damos por nós já não sabemos muito bem onde começa nem onde acaba...
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A saudade, essa dor que corrói, que mói, que se instala devagarinho e depois fica. Fica como se sempre tivesse sido dali. Vai até às entranhas, mexe, remexe, e quando damos por nós já não sabemos muito bem onde começa nem onde acaba.

É quase um organismo vivo.
Quanto mais lhe pegamos, quanto mais a aproximamos do nosso próprio olhar, mais ela cresce. Mais se espalha. Mais se entranha.
A saudade é isso: aquilo que foi… e o desejo quase absurdo de voltar lá, mesmo sabendo que não dá.

É aquela emoção meio louca, meio descontrolada, que nos faz responder sem hesitar à pergunta impossível: preferias dez minutos a ver o futuro ou cinco segundos no passado? E nós nem pensamos, nem ponderamos. Cinco segundos.
Só mais cinco segundos.

A saudade não mata,mas corrói.
Moí-nos por dentro, devagar, silenciosamente. Suga-nos até às vísceras sem pedir licença, sem explicar porquê.
Há dias em que se alimenta mais. Dos dias mais frágeis, mais cansados, mais pesados,como se soubesse exatamente onde tocar.

Depois mistura-se. Com melancolia. Com carinho. Com uma espécie de ternura quase injusta, porque de repente tudo o que ficou para trás parece melhor, mais bonito, mais inteiro.
A saudade também limpa, também escolhe, fica só com o que foi bom, e isso, às vezes, dói ainda mais.

É uma palavra tão nossa. Tão portuguesa. Tão difícil de traduzir, porque não é só sentir falta, é sentir falta com memória, com amor, com dor, com história.

Ter saudades é talvez dos sentimentos mais naturais quando vivemos algo bom, e dos mais duros quando, por todas as portas e travessas, sabemos que não voltaremos lá.

A saudade é um dia. É uma pessoa. É uma voz. É um cheiro que aparece do nada, é uma alma inteira a viver dentro de nós, mesmo quando já não está.

A saudade é a certeza de que houve algo tão verdadeiro, tão inteiro, que nem o tempo, nem a distância, nem a ausência conseguem apagar. É a prova silenciosa de que vivemos, de que amámos… e de que, em algum lugar dentro de nós, isso fica para sempre.

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