Chegámos ao Ethos Bertolina num daqueles momentos em que o cansaço já não é só físico, é mais fundo, mais acumulado, quase silencioso.
Ele vinha de semanas de preparação intensa para uma competição de crossfit, treinos exigentes, rotina apertada, foco absoluto, eu com um ritmo diferente mas igualmente cheio, daqueles que não param mesmo quando achamos que estamos a parar, e percebemos que precisávamos do mesmo, abrandar, mas sem desligar completamente de quem somos.
O Ethos não é um sítio onde se vai só descansar, é um sítio onde se vai recuperar, e isso sente-se logo, não há aquela ideia de fuga total, há intenção, há propósito, há um cuidado quase discreto com cada detalhe.
Ficámos na guest house, simples, confortável, sem excessos, tudo no sítio certo, como se o espaço dissesse, fica, não compliques, respira.
Os dias começaram a ganhar outro ritmo, não imposto, mas sentido, acordar sem despertador, perceber o corpo antes de decidir o dia, ouvir o que pede, que às vezes é descanso, outras vezes é movimento, outras vezes é só silêncio.
E depois há aquilo que realmente marca esta experiência, os tratamentos.
A câmara hiperbárica foi um desses momentos que ficam, não pelo espetáculo, mas pela sensação de que estamos finalmente a dar ao corpo aquilo que ele precisa e quase nunca tem, tempo e condições para recuperar a sério, oxigénio, regeneração, uma pausa interna que não se vê, mas que se sente depois.
Fomos passando por diferentes momentos de cuidado, estímulos mais intensos, outros mais suaves, sempre com uma lógica muito clara, ajudar o corpo a recuperar, mas também a funcionar melhor, com mais equilíbrio.
E há uma coisa curiosa que acontece, enquanto o corpo é tratado, a cabeça acompanha, desacelera sem esforço, organiza-se, fica mais clara.
A comida entra neste processo como uma extensão natural, mediterrânica, leve, pensada para nutrir sem pesar, refeições que fazem sentido naquele contexto, que ajudam o corpo a responder melhor a tudo o resto.
Nada ali parece aleatório, tudo está alinhado, o espaço, os tratamentos, o ambiente, a comida, tudo a puxar para o mesmo lado, bem-estar físico e mental, sem grandes discursos, só prática.
Não voltámos diferentes no sentido dramático, voltámos mais afinados, mais conscientes, com a sensação de que parar, quando é feito com intenção, também é uma forma de avançar.
E isso, no meio de vidas tão exigentes, já é muito.
