Acordei hoje com aquela sensação estranha de quando algo muda, mas ainda não sabemos exatamente o quê. O mundo estava no mesmo sítio, o café sabia ao mesmo, o telemóvel estava cheio de notificações e, ainda assim, havia um peso diferente no ar, um desconforto difícil de explicar, como se o país inteiro estivesse a tentar perceber como é que chegámos aqui.
Não foi apenas uma eleição. Foi um espelho.
O facto de um candidato de extrema-direita, com um discurso autoritário, agressivo e excludente, ter ficado em segundo lugar não é só um resultado político. É um sinal. E os sinais, quando ignorados, raramente desaparecem, tendem a ganhar força.
Assusta-me, e não tenho qualquer problema em dizê-lo.
Assusta-me porque a democracia não é um dado adquirido, nunca foi. Assusta-me porque a história mostra-nos, vezes demais, que tudo começa de forma subtil. Primeiro normaliza-se o discurso, depois relativiza-se a violência verbal, mais tarde começa-se a achar que “não é assim tão grave”, e quando damos conta, já estamos a justificar aquilo que, noutra altura, nos teria chocado profundamente.
O que mais me inquieta não é o candidato. São os aplausos.
São as pessoas que se reveem naquele discurso, são os votos que validam uma visão do mundo assente no medo, na exclusão, na divisão entre “nós” e “eles”, é perceber que esse discurso encontrou eco, encontrou lugar, encontrou força. Isso obriga-nos a uma pergunta desconfortável, mas inevitável: o que falhámos enquanto sociedade para chegar aqui?
Talvez tenhamos falhado quando deixámos de ouvir, quando trocámos explicação por ironia, diálogo por trincheiras, complexidade por frases feitas. Talvez tenhamos falhado quando aceitámos que a política se tornasse barulho constante, ataque permanente, espetáculo vazio. Ou quando achámos, com uma certa arrogância tranquila, que “isto em Portugal nunca aconteceria”.
Aconteceu.
E vai haver uma segunda volta.
Não escrevo isto para dizer a ninguém em quem deve votar. Escrevo porque há momentos em que o silêncio também é uma escolha, e eu não quero escolher ficar calada. Escrevo porque sinto que este é um daqueles momentos em que precisamos de parar, respirar e pensar no que estamos a normalizar sem dar conta.
Quero escolher a consciência, a memória, a responsabilidade. Quero lembrar que a liberdade precisa de ser cuidada, que os direitos não são permanentes, que a democracia vive da participação, da atenção e da coragem de dizer “isto não me representa”.
Não precisamos de pensar todos da mesma forma. Precisamos, sim, de não desistir de pensar. De questionar, de sentir desconforto quando algo não nos soa certo, de não tratar como banal aquilo que nos afasta da empatia e da humanidade.
Talvez este seja o momento de deixarmos de fingir que não nos toca. Porque toca. A todos.
A forma como reagimos agora diz muito sobre o país que estamos a construir e sobre aquele em que vamos viver depois do dia 8.
Não sei o que vai acontecer. Mas sei isto: não quero viver num país onde o medo fala mais alto do que o cuidado, onde o grito substitui o diálogo, onde a exclusão é apresentada como resposta simples para problemas complexos.
Escrevo porque continuo a acreditar que pensar, sentir e falar são atos profundamente políticos e profundamente humanos. E hoje, mais do que nunca, isso importa.
