Cometi a excentricidade de escrever sobre um músico-a-tempo-inteiro, vejam bem.
Claro que o fiz engasgar-se com tanta informação que tinha a passar-me, para que eu então vos pudesse escrever acerca deste meu amigo de infância, da forma mais fiel possível.
O Alexandre Reis. Conheço-o talvez desde os meus 9/10 anos?
Sabem, faz parte daquele grupo de amigos que referimos quando a memória nos leva à infância passada na casa dos avós e na casa de campo, estão a ver o género?
Foi lá e é desde lá que conheço o Alex.
Penelense de gema.
Sempre foi de todos nós, um dos mais despachados.
Era o “bonitão” do grupo e aquele que nunca se metia nas confusões, pelo menos, as que me lembro. E podem acreditar que nós levávamos mesmo a cena no pátio ao limite, bem ao estilo dos “Morangos com Açúcar”, ao ponto de marcarmos data e hora para sair dos tempos livres, mesmo que, nos casos mais extremos, estivéssemos na hora do treino de dança.
O Alexandre desde que cresceu que surpreende todas as pessoas que acompanham de algum modo o seu desenvolvimento.
Teve numa mão o sonho e noutra a teimosia. Uma família constantemente “à perna” porque ter um curso superior é fundamental e “obviamente ninguém vive de música”.
Pessoalmente? Acho que há tempo de mais que a cultura em Portugal deixou de ter o valor que deveria obrigatoriamente ter e acho sobretudo que nos esquecemos quase sistematicamente do valor que um artista tem, desvalorizando assim o seu trabalho.
Estúpidos de nós, paciência quase constante a deles.
Este meu amigo de sempre, aos 14 anos de idade descobriu a sua maior paixão e vocação- A bateria.
Quase como em tom de brincadeira entrou para a Orquestra Filarmónica do sitio e foi a partir daí que começou a dar os primeiros passos largos, num mundo pelo qual é fascinado a falar.
Como devem imaginar para mim uma bateria ou o mundo da percussão em geral é pior que Matemática A, no entanto sei avaliar a paixão e o profissionalismo do próximo, e podem crer que ele está muito acima de qualquer média assinalável.
Os sonhos do Alex não acabam, com eles as expetativas aumentam o mais possível e a sua ambição já o levou tão longe, mas um longe que por ele sei bem que nunca irá ter fim definido.
Em poucas palavras posso resumir a história dele, que começou numa banda da região, os Decibel Zero, e que quase automaticamente se ampliou quando foi de mala às costas até Londres.
Sozinho e com um objetivo- encontrar o seu baterista de eleição e de referência de todos os tempos: JP Bouvet. Não sei bem sobre quem vos estou a falar neste momento, mas sei a enorme admiração que ele tem por se terem cruzado e partilhado aulas e experiências no mundo da percussão .
Cada vez com mais certezas de que a sua vida não vai ser atrás de uma secretária mas rodeada de tambores interligados e com duas baquetas nas mãos, o Alex nunca desistiu, nem que para isso tenha de ter tirado quase como por “um, dó,li,tá” a Licenciatura em Administração Público-Privada, na Universidade de Direito de Coimbra.
Enquanto o fazia -altamente contrariado- participou também em diversos concursos de talentos e alguns deles específicos da área. Para mim o destaque de todos eles foi aquele em que saiu vencedor- Na categoria de “maior de 18 anos”, ficou em primeiro lugar num concurso nacional de bateristas, organizado por alguns dos melhores do país e pelo Atelier de Percussão do Porto, dali foi tocar ao Festival de Percussão de Lavra, ao lado dos maiores nomes nacionais que temos.
Em todo o percurso académico que teve de cumprir obrigatoriamente, quase como em tom de “aposta” perante os pais, nunca parou de evoluir na área. Tocou com grandes nomes nacionais e até internacionais e já integrou diversíssimos projetos.
Neste momento, terminada a licenciatura, conseguiu finalmente a sua maior realização pessoal- ser músico a tempo inteiro.
Depois de tanta luta e garra que teve de sempre o caracterizar para que conseguisse chegar ao ponto em que se encontra, vive a fazer realmente o que quer.
Os seus dias são feitos a aprender mais e mais, cultivar-se na área, treinar, praticar, compor. Tudo o que é necessário fazer para se tornar melhor, ele fá-lo, o que faz dele uma pessoa totalmente aficionada por aquilo que faz- boa música para os ouvidos de qualquer um de nós.
O Alexandre lutou, conquistou e venceu.
É uma honra conhecê-lo de perto e sobretudo conhecer um ser tão forte e tão capaz de lutar pelos seus sonhos, quando todos lhe dizem que sonhos não movem montanhas.
Os deles moveram e estou certa de que ainda se irá fazer mais ouvir ao som da sua bela bateria.
A música precisa de mais pessoas como tu e nós precisamos de mais pessoas assim, não só no mundo da música, mas no mundo em si.
Boa sorte e que nunca nada te desfoque do teu enorme talento. Sofrido sim, mas enormemente merecido.





É uma enorme satisfação saber que és um vencedor. Parabéns!